sábado, 20 de setembro de 2008

Eu e parte de mim

De corpo junto ao meu, de encaixe perfeito e toque sensual. De cor incerta e discursos de revolta, ódio, amor e carinho. De palavras que não saem, que se embalam entre sal e sauna de quem sente e se desfigura. De olhar longe do tempo, nesse corpo que dança ao som do que entoa, nesse egocentrismo que fica na dualidade imperfeita mas tão leal. Talvez. De tudo o que ficou parece a razão apelar partir. A escala sabe a história, o eco, a agudos de declínio. No bordão do que é grave, a palheta soa a tempestade quando é sombra do mais belo luar. Limpo e sarcástico na Noite. Nessa ameaça única de que nada é bom e o mau não existe. Cortaram-se meus braços. Chateou-se comigo. Um bigode novo, um caracol por enrolar. Sabe a pouco. O sangue nem escorre e o leite da música é somente mais um eco no meio dos acordes do que não fica. Os dedos saltitam trasto ante trasto com alvíssaras musicais. Fazem-no sem ordem, sem o saber. O inconsciente é nosso mesmo que não perfeito, mesmo que independente na forma como cada um se manifesta. Fugiu há muito a vontade de saber desenhar. O quadro é ser natural. A vontade e o desejo são luxo, gula, boémia. Não importa. Existe. Como tudo o resto. (Talvez). Desapareceu.

24-03-08

Remexi e encontrei...

Uma Noite de Lua rasgada ao meio. Uma Noite de estrelas recolhidas a um canto, lançando as mensagens nos desenhos que tudo dizem. Uma Noite sem rumo, predefinida pelo incomum. Uma Noite...

A escuridão era cortada pelos antigos candeeiros da cidade. Num cubículo, mulheres mal feitas, de juízos desprotegidos, entregues ao mundo cristalino da ilusão. Noutro, homens pecadores de sangue frio. No desrespeito no olhar. Melodias ferozes no silêncio do lá e acolá. Ruídos desconhecidos.

Um canto perdido. Perdido algures. Destroçado, mal apanhado. Faz talvez lembrar um canto de sodomia infantil. Um verso sem ponto, uma linha em nada.

Aí, dois seres. Um perdido na arte o outro no banal, no comum. Um perdido na revolta, outro na inocência do desconhecimento. Um, chorando, outro, ingénuo, sorrindo nas palavras. Um Amando, outro morrendo. Um morrendo, outro amando.

Gritos sinceros de cada um deles com aspiração à união e à existência. Com aspiração à ode pessoal e à ode colectiva. As brincadeiras das palavras, dos jogos de espaço e do tempo que não existe... Um passo em vão ou uma facada... O desatino do fazer e do não fazer.

Chegada à praia. O mar. O vento a soprar sobre as ondas e a gritar que os fanatismos da humanidade na modéstia que não existe e no sentir que é pecado são abolidos pela desonra de ser infiel à verdade, à realidade, ao todo, ao pensamento.

Caminhadas algures onde havia pegadas. Seguindo passos do antigamente. Unindo o tempo e sendo perfeito. Ao longe dos anos-luz pinados sobre Regulus ou Skat e laborando a piada da veia do inconsciente, sempre viva, sempre real...

Um grito, uma faca. Um berro de pavor e um escárnio de prazer carnal sempre entre a parede e o tempo. O espaço e as horas. O Eu e o Vós. A desgraça e o furor. O prazer natural transformado em ódio e em euforia. A vontade de ser feroz e superior aniquilada pelo ódio e todo o desalento.

Dizem que as pessoas são feitas de ar e que a luz provem da matéria que se compõe em spicatos de genes e substâncias epopeicas. Dizem que a brisa carbónica e hidrogénica se completa com astros que nos caem nos corpos e nos formam as células.

Eu pinto a eternidade do nada. Esse pelo menos é eterno e é meu. Não, não sou egoísta. Todos temos os nossos. Mas este é particularmente um todo só meu. O beijo da lealdade cortou-me a vontade de seguir rumos concretos. Apetece-me esculpir sentires e deixar-me ir. Talvez um dia tudo mude e até o nada seja eu...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

‘Wretches! ye loved her for her wealth and hated her for her pride,
‘And when she fell in feeble health, ye blessed her—that she died!
‘How shall the ritual, then, be read?—the requiem how be sung
‘By you—by yours, the evil eye,—by yours, the slanderous tongue
‘That did to death the innocence that died, and died so young?’
From Lenora by Edgar Allan Poe

Escrito em tempos... Coisas outras que por vezes por mim passam...

Falaram-me desta casa há anos atrás. Falaram sem nada dizer no cuidado de pintar cada parede - cada poeira até - com toda aquela melodia do silêncio. Falaram-me (falaram-nos), descreveram-na e a verdade ficou no para lá da percepção. Erros do tempo, erros do nada, falácias e letais verdades consumidas pela incerteza provocada por toda e qualquer veia humana. Esse lapso do saber...

Parecia uma casa, segundo tais mensagens, recheada de cor boémia muito ao jeito do gótico romântico e venenoso do tempo do incomum e do desconhecido. Esse tempo, esse agora, ainda que no passado vivido. Todavia, a imagem é escura, fria, triste, tétrica, suave. Em parte, corresponde às linhas dessa realidade, mas será demais dar-lhe tais características. Se há realidade que a escuridão não suporte é a entidade da boémia, a entidade do luxo voluptuoso, consagrada num individualismo de fragas. Nesse padrão, muito mais. Tamanha complexidade não se pode designar assim. Blasfémia seria não a máscara mas tal mascarada...

Demorei como que uma eternidade a abrir a porta. Sabia que mal desse os primeiros passos, a máscara estaria lá. Sabia que podia ser pintado de negro também (afinal, dizem, cada quarto era despromovido de velas e candeeiros e certamente, hoje, a sala também o seria. Muito mais com todas as histórias de cada quadro que encontrei). Demorei o tempo necessário para me lembrar das cores de cada sala narrada, de cada quarto vazio e de cada ponto que imaginei quando falaram do mascarado. Quem seria a máscara e quem me iria receber dentro de toda aquela escuridão, dentro de toda aquela transparência. Pensamentos limavam-me os poros e envenenavam-me a tinta que me ia escorrendo pelas veias...

Abri a porta. Forcei, puxei, forcei novamente e abri a porta. Com o arrastar do embate e do som que provoquei, caíram poeiras que desenharam no chão uma espécie de arco e o eco que se prolongou no meio do vazio levantou-as e fê-las tornar-se uma Lua. Não. Não a vi definida, vi-a na escuridão. Uma espécie de lua nova ou uma espécie de eclipse de onde saem apenas alguns raios brancos segundos antes da sua totalidade. Definida na escuridão sem se ver, vendo. As passadas foram longas no tempo. Parava minutos que pareciam horas que pareciam segundos. Parava e olhava sem nada ver. Sabia que ao meu lado respirava o corvo e sabia que à minha frente estava a história do meu passado. Não que fosse meu, mas porque o meu coração derretia com as chamas das imagens que a história me proporcionava.

Tinha um isqueiro comigo mas o gás havia acabado e portanto restavam-me os sentidos. Por detrás de toda a escuridão, o zumbido do silêncio fazia-me ouvir a música daquele último baile. Fazia-me ouvir as vozes de sorrisos e de relógios que entoavam badaladas e assustavam o medo provocando o silêncio pelo desconhecido. E foram essas instâncias sonoras, salpicadas de pó e de cadáveres zarolhos e renascidos que me ensinaram a ver na escuridão, desenhando passos e recebendo o cheiro e o ponto crucial de cada horror. Optei pelos quadros e olhei-os. Cada um recheado de memórias e chorando as lágrimas do que não esquecem. Cada um contando tristezas e alegrias e comovendo quem não percebe, irritando quem assim sente...

E eu sabia que não estava só.

Voltei-me e desenhei na escuridão todo o caminho respirando cada cadáver. Era curioso o facto de não sentir o seu cheiro. Sentir apenas presenças e paz. Fazia-me confusão - mesmo que estivesse ciente de que a paz era superior à morte. Mas a morte... A morte estava comigo e talvez por isso não fosse tão estranha toda aquela realidade. Talvez me tenha tornado transparente no momento em que dei o primeiro passo. Ou talvez me tenha sentido a sombra da transparência até ao topo deste castiçal onde me encontro, acompanhado pelas chamas da lareira e pelo sorriso da eternidade.

Cada cadáver tinha a exacta expressão do medo demente em que se bloqueia mas não se molda o rosto, ficando na serenidade do tempo, exactamente como um raio de luz congelado, num crepúsculo de dor mentida... Não era só eu a olhá-los mas era o primeiro a fazê-lo pela primeira vez desde há muitos anos. Avancei para umas quaisquer escadas e subi para aquilo que diziam ser os quartos e nesse momento não tinha mãos. Sentia-las, porém, mas não tinha mãos. Entrei no primeiro quarto. Ali predominava o azul. Cheirava a céu mas desentupido com algumas chamas de realeza nobre e abrupta. Creio que comensuravelmente designada. Cheirava a ópio. Ali, sim, estando em casa, como podia eu esquecer, mesmo sombra, mesmo transparente, todo aquele odor que me ajudara a ser quem não era ou, quiçá, quem era no mais profundo de mim...

Nesse quarto perdi um olho. Sabia que já não o tinha, mas via igualmente como se o tivesse e senti-me gozado. Saudavelmente gozado. Um bobo da corte sente-se pequenino mas não o sabe, uma corte de um bobo é que já desenha bem alto demências que não afectam... Mas fui gozado e temido e, aqui confesso, soube muito bem.

Caminhando para aquela segunda sala, fluía o púrpura. Oh que paz! Sentei-me nesse chão e senti que não tinha costas. E sorri. Olhei as janelas (enormes janelas) daquele quarto anterior. Dali a perspectiva era muitíssimo mais bela e a escuridão estava claramente mais luminosa. Acho que é bom ser-se zarolho e perder-se as mãos e as costas, pensei...

Subi para o andar das pernas e encaminhei-me para o terceiro quarto, avaliando tapeçarias e ornamentos de vidraças e saboreando o suor da mobília. Este era verde. Assustadoramente verde e cuspia-me risotas e deteriorava os meus ouvidos. Foi o verde que me matou os ouvidos (ironicamente natural, julgue-se). E o laranja que se seguiu fez-me lembrar o sol que me derreteu os braços e me tirou o tempo. Lá fora ainda, me tirou o tempo. Sempre coberto de ironias e alto e forte e... Essa gula humana de o ter, vislumbrada nos outros, sempre me tirou a fome e isso humilhou-me o tempo. Passei para o branco e em seguida para o roxo e todas as ombreiras e todos os caixilhos e toda a serenidade e todo o medo deturpado e amedrontado tiraram-me a face e os cabelos e derreteram-me os pés. Acho que começava a sentir uma espécie de formigueiro no coração e fez-me lembrar o ópio e a cigarrilha e a voz do tempo que me tiraram e a voz do álcool que me mentiram. Mas senti-me leve e gigante como o relógio de ébano que estava ali, parado, sem contar o tempo que contou no dia daquela alvorada, daquela ironia.

Cheguei ao último e como me haviam dito 'estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do tecto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade' e, sim, no meio da escuridão, já eu uma sombra total, salientava-se todo o foco negro e todo o pontinho distanciado porque até o vácuo se distingue no próprio vácuo. Salpicado, talvez, nesse último canto ouvia o sorriso daquele que reinava e sentia-me, já morto, vivo com a raiva de quem não sente e de quem não existe. O infinito que tudo toca. Ao lado, aquela cor de sangue fazia-me sorrir e pensar que o equilíbrio era perfeito e o desafio era perdoar e a matéria era desaparecer. Lembrei-me que estive lá mas não me lembrei como. E por momentos, enquanto me despia do ódio, lembrei-me... Nessa Noite fui toda essa Morte Escarlate e hoje, perdoado por mim mesmo e de vingança concluída, matei-me a mim...

[Poder-se-á dizer que tropecei no tempo e vivi o pecado nestes minutos curtos de escrita. Apoderei-me do trono que se perdeu nas ruas da humilhação mas fi-lo por amor e fidelidade porque sei que um dia esse passado será o futuro de um não-coração]

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Pareceu estranho, talvez, o que escrevi há um par de dias. A verdade é que não há estranheza alguma em qualquer destes labirintos. Tudo tem uma razão e o que eu fiz não foi excepção.
Tenho andado a deambular por zonas, na vida, em mim, na sociedade e com ela, que me têm dado a conhecer melhor as atitudes humanas, as eventuais formas de as controlar e essencialmente o modo como tudo de facto se encontra perdido no nosso país - ou mesmo em todo o mundo - por razões comportamentais e por razões, apostava dizer, temporais - tanto climáticas como históricas.
Como referi atrás num post meu, tenho dedico bastante do meu tempo ao desporto. Este mês descansei apenas do judo mas segunda feira as coisas já são retomadas com toda a garra de um conquistador. Nas horas em que estou no tapete, tudo em mim ganha uma tamanha harmonia que qualquer dor e qualquer derrota são mais um estímulo para a edificação do meu psicológico, mais uma razão de orgulho no próprio desafio e mais um motivo de avaliação tanto da técnica como das várias personalidades que ali se podem encontrar. A verdade é que o judo é um dos desportos mais estruturais que se pode conhecer. Pode não ser das artes marciais mais ferozes aos olhos dos que a vêm mas chega a ser tão mais forte que taekwondo ou karaté quando devidamente praticado. Devidamente praticado implica força de corpo, técnica profissional e a cima de tudo responsabilidade de mente. Num tapete, quão mais matura a inteligência, mais imediata a vitória. É portanto um óptimo vínculo de análise e de estudo psicológico.
Por outro lado, no ginásio encontra-se todo um leque de pessoas já de idades mais elevadas cuja realidade é uma eventual depressão, sedentarismo ou problemas de ordem física que obrigam uma qualquer fisioterapia para accionar o corpo e impedir o esquecimento da mente. É um jogo entre os nossos dois lados mais importantes, um jogo entre o nosso dois em um. Deste modo, enquanto treino encontro-me em observação e tento conhecer o que está por detrás de cada sujeito naquela sala e a verdade é que dia a dia, independentemente das diferenças corporais, aquelas pessoas vão mostrando pontos de rejuvenescimento por todo um limpar de alma, por todo um enquadrar biopsicológico. Sendo aliás uma espécie biopsicossocial, estando em convívio com outras caras, todas as variáveis acabam por trabalhar e as melhorias são estrondosas.
Contudo não é apenas isto que me atrai e não foi esta a razão que me levou a escrever o que escrevi. A verdade é que a sociedade é feita de carris de inteligência. Queiramos ou não, aqueles que nos atendem são pessoas, aqueles que nos focam são pessoas, os computadores são manipulações provenientes de pessoas, os sistemas são registos de pessoas, o povo são pessoas, a sociedade é o misto de pessoas. Assim, não será difícil compreender que tudo depende da formação de cada uma delas (e com isto falo da educação tal e qual o valor desta palavra e não a ridícula ideia de quão mais doutor ou mestre se for mais se saberá ou poderá fazer).
Olho para o sistema e vejo tomadas de decisão completamente descabidas. Fica a ideia de que das duas uma, ou há uma exigência externa que leva os senhores das alturas a tomar tais decisões sob efeito de ameaça ou sob efeito de esconder um eventual problema ou então de facto não sabem o que andam a fazer nem com que problemas andam a lidar. Porém, não entrando na via concreta da política, existe todo o factor de pressão que acaba por ser automático no nosso psicológico. São os tais estímulos externos que nos moldam comportamentos uma vez trabalharem com o nosso sistema somático de modo a codificar informações base e encaminhar o nosso comportamento para a sede do medo, da moda ou simplesmente da neuropatologia da insignificancia credibilizada tão somente pelo próprio. I.e., quando sob efeito de um eventual pormenor complexo, o ser humano bloqueia a não ser que saiba controlar as suas emoções a um nível que premite não congelar a informação que traz consigo nem esquecer a possibilidade de a completar com outra que possa vir a adquirir. Tal não sucede na maioria dos casos. Na ordem política vê-se sobretudo uma bola de neve entre a luta pelo poder económico e a imagem de bem (pois hierarquicamente torna-se uma regalia poder dizer-se senhor doutor fulano xinfrano de tal e pessoalmente torna-se uma mais valia poder dizer que se é representante de um país). Mas as coisas não se prendem com questões unas de erros individuais. O que sucede é um condicionamento pelo próprio erro do país para com aquele que lá chegou. Podia entrar pela área da selecção do senhor (ou da senhora) que nos representa mas penso que mais importante será a educação por que essa pessoa passou. O erro vem de trás e a euforia, o drama, sucedem sem cessar, século após século, numa bola de neve, num ciclo vicioso, por não se abrir os olhos e, pior, não nos deixarem sequer ter a possibilidade de o fazer visto que o estímulo é sempre condicionado pela censura da verdade e pelo esquecimento do que realmente interessa: o povo, a base do país, o resultado do país. Na verdade, um país é como um sistema em que o coração é o povo e o cérebro é o líder. O coração permite que o país viva estimulando todo o restante corpo, ao passo que o cérebro é aquele que apenas orienta e comanda as informações de modo a que o corpo, ao qual igualmente o cérebro pertence, se mantenha homeostático e se demonstre saudável. Tal não acontece. Porquê? Porque os sistemas neurais de todos aqueles que actualmente vivem no nosso país estão condicionados por razões que eles mesmos desconhecem e por receios e revoltas que surjem aquando da crise, aquando da pressão da moda e essencialmente como fruto de uma lacuna enorme da educação por que se passou, tanto social como familiarmente (evidentemente que a questão pessoal estará em evidência em ambos os aspectos e até mesmo de modo individual, tratando-se de um eu uno e de uma experiência singular).
Se o país não tem modos iguais e não se preocupa com a forma como a base é moldada, tudo o resto, por mais importante que seja o capital, sairá condicionado. Portanto, de mansinho o erro instala-se e, na força da ilusão por falta de formação e por omissão da realidade por parte de quem a vive igualmente às cegas, a multidão enfraquece. Disto advém o drama, o desespero, a revolta, a dor, a depressão, a languidez, a morte e, para aqueles a quem isso importa realmente - ou pelo menos deveria importar -, a precisa morte de um sistema nacional dado que sem coração o cérebro deixa de poder trabalhar.
É efectivamente curto o espaço que há para explicar toda a complexidade do nosso sistema humano e, pior ainda, explicar, na via da subjectividade, os erros cruciais do Mundo e do Homem mas a verdade é que nada acontece por acaso e nada se altera sozinho. Existem n situações que precisam de imediata resolução e o bloqueio contínua a ser imenso. Euforicamente definido, perde-se na linhagem da consciência pois chega à linha do deliberado e portanto quebra o equilíbrio pretendido num qualquer sistema para que este possa ser saudável. Conscientemente apontado, esquece-se que se é humano e que o automático não é para nós. Somos variados, somos complexos, somos vazios quando o estímulo não nos chega. Temos portas que necessitam de ser abertas e temos um sistema que nos premite, quando em doença, quando com uma determinada limitação, complementar essa mesma deficiência de modo a conseguir equilibrar toda a nossa realidade. Sozinhos não o conseguimos por fraqueza e por cegueira estupidamente definida pelo próprio sistema mas na companhia de quem a isso possa dar atenção podemos ser heróis de guerra e ser mestres do poder, basta-nos saber aproveitar o que temos de melhor e esquecer que o preconceito e a ignorância são as chaves da insignificância... Achega das achegas, assim nos fala a psicologia...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ás vezes sinto falta desse violino que pintaste no jardim do tempo. Sinto falta do odor que trazias em ti quando chegavas entre cóleras e lágrimas. Saudade dos teus escassos sorrisos e dos teus brilhos perfeitos. Ás vezes, sim, sinto-me só e sinto-me culpado. Outras, sinto-te o pior dos meus momentos. Trouxeste o sal e o fogo. Despiste o tempo. Hoje, não penso. Outrora, sonhei.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Dizia-nos, aliás, Marquês de Sade que não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes...

Desabafos soltos...

Os efeitos de uma miragem, os efeitos de um ponto de origem que não se define sequer. Os efeitos de uma dança entre palavras infinitas que se debruçam em sentimentos impossíveis. Verdades.
Parece triste ter de contar tão somente com a inconsciência, viver de manifestos automáticos como resultado de uma base intrínseca e de uma adaptação quase que imediata. É, de facto, triste. A aparência por vezes engana. Porém, é uma base que nos compreende entre furores fatais, nesse destino desmesurado que nos acompanha em vida. São coisas um tanto descabidas mas parte da evolução quando devidamente estudadas por cada um de nós, cientístas de nós mesmos. Pergunto-me frequentemente até onde nos leva a insanidade e até que ponto podemos acompanhar melodramas infinitos de surrealismo. Pergunto-me até que ponto não passamos de seres naturais a seres replectos de patologias neuróticas e abismais por decorrer tal efeito na nossa linhagem de pensamento. É tudo uma inconstante e uma incerteza mas a verdade é que há limites. Limites acompanhados por questões que inclusive nos ultrapassam mas que continuamos a esculpir como se delas fossemos controladores, nessa mania de seres ofegantes de razão, de seres replectos de sabedoria. É triste. É um facto. Assim como facto será que todo o nosso comportamento condiciona e é condicionado por aspectos vários que, parecendo que não, apenas partem de nós. Numa experiência prévia, independentemente da qualidade que se decompôs na sua realização, arquivamos informações mnésicas que nos encaminham para quando em situações idênticas à vivida possamos decidir mediante o que entretanto se aprendeu. O processo é tão somente nosso. Há quem lhe chame jogo de cintura, eu opto por independência ou maturidade.
É verdade que não podemos exigir a perfeição de cada indivíduo mas também é um facto que devemos acompanhar cada sujeito ao ponto que dela possa ser mais próximo e isso passa pela consciência do que é o mundo, pela noção básica que possa estimular o raciocínio e a inteligência (nessa escala variada e indefinida que a compreende) e, claro, pela própria noção de quem somos e de que modo podemos compor ou mesmo definir o que nos rodeia, incluindo, claro, cada entranha da nossa realidade individual. São as bases da evolução, creio. São estas que nos permitem a felicidade (um termo próximo da perfeição: existe, deve-se lutar por ela mas nunca se alcança a sua totalidade).
Pois bem, no nosso sistema existem n subsistemas que empreendem tanto estímulos naturais como estímulos químicos. Existe uma predisposição quase que inata para o processamento dessas informações de dada maneira. Existe toda uma saga de subcircuitos que trabalham consoante a combinação deste todo e existe evidentemente as barreiras criadas tanto por nós como pelos que nos rodeiam - o que, estando em plural da primeira pessoa implica necessariamente a participação una de um indivíduo em primeira pessoa do singular, novamente partindo de um eu único. Deste modo, torna-se um ciclo toda a acção. Temos os passos que antecedem a opinião/movimento do outro e temos os que sucedem esse mesmo ponto. Temos inclusive os passos independentes e até por vezes os de tal ordem automáticos que nem nos damos conta que sucederam. E é a assimilação de tudo isso, o controlo dessas variáveis e desses manifestos que nos faz ir até mais longe na sede da neurociência, na base da psicologia.
Repare-se quando olhamos para um ponto infinito e o processamos. Assimilamos esse ponto com metade do nosso lado consciente e com outra do nosso modelo inconsciente. Uma incógnita este último. Por mais que queiramos, não o conseguimos desenhar. Mas existe, actua, manisfesta-se... Está lá. E estando lá é um estímulo do nosso comportamento - estímulo esse resultado de toda uma série de estímulos que de algum modo são igualmente estimulados por ele mesmo. Neste caso, prendemo-nos então com a questão: como é então interpretado esse ponto infinito? Simples. Com todo o nosso sistema, que compreende toda a nossa teia arquivada até então, essa informação será laminada com a atenção de cada partícula como se de uma decomposição em átomos (ou, pior ainda, em quarks, léptons e bósons) se tratasse.
O nosso sistema tem a sua base neurótica (todos temos esta patologia se a encararmos como uma sucessão de anomalias comportamentais comparadas com o que cada um define com a perfeição) que por sua vez compreende uma série de vivências além-inatismo. Por outro lado, sofre de uma realidade momentânea. Por vezes o nosso sistema endócrino tem toda uma equação de sensações condicionadas por situações, deficiências e meros traumas (normalmente da ordem inconsciente e, como tal, automática) e isto faz-nos perder em nós mesmos quando processamos a informação interpretando um ponto preto como se de uma mancha de tratasse ou um ponto branco como se uma surrealidade estivesse ali definida. Por vezes, a mensagem de quem desenha algo torna-se subjectiva e incrivelmente estimulante. Podemos até ver a mensagem oposta mas por segundos o choque do momento é o mesmo que o do seu autor. Contudo, o que nos importa focar é que de facto a interpretação é uma subsequência do impacto que tal provocara em nós de acordo com tudo o que entretanto em nós se edificou, decisiva (parte de nós) ou temporariamente (resultado de determinado momento e emoção).
Em suma, até porque a extensão de tais palavras pode ferir resistências psicológicas, tudo o que digo é um tanto evidente e imediato na nossa percepção das coisas mas dentro da nossa fraqueza esquecemo-nos que tal sucede. Entregamo-nos a actos-manifesto e deterioramos assim as nossas experiências, bem como as dos que nos rodeiam. Facto é que esse ponto infinito não é a verdade que se analisa. O que de facto fica em processamento é a nossa vontade. Um momento de nós para nós que nos faz definir quem somos. Onde se torna um problema? Quando se tem noção de que o que baseia esse momento é a intensidade que nos fere e nos motiva qualquer outra realidade em nós, nessa fronteira aberta que temos com a vida. Unem-se as patologias comportamentais, seja de que ordem for, às necessidades socio-pessoais - em parte fruto dessas mesmas patologias - e descarrilam-se virtudes. As pessoas prendem-se com vícios e os vícios são exactos resultados do comportamento inadequado. Porém, anomalias reais e compreensivas nessa linhagem da deficiência doentia do que é o pensamento de nós para nós. Basicamente nós fazemos o que queremos do nosso corpo e nem damos atenção ao quão assassinos estamos a ser. O que se ingere lá fora quando se vive cada momento é a injecção para a nossa composição. Todavia quem a dá seremos sempre nós por sermos o sujeito activo, o sujeito que premite que o outro possa ser tão importante e sobretudo o sujeito com as portas abertas para que tal momento possa suceder em nós, tanto num ante como num pós assimilação.
Perguntam-se agora, provavelmente, o que me terá dado para deixar fluir esta maré de mensagens. Como diz o título, meros desabafos. Sempre me disseram que sou demasiado exigente com cada pessoa mas a verdade é que desde sempre compreendi que as pessoas não são tão somente pessoas. Não é essa imagem social que as define e tenciono desprender-me dessa realidade para poder ser melhor. Há evidentemente limites. Limites humanos e limites tão somente individuais. Todavia, esses limites não são mais do que fruto de um limite maior que será a desistência ou a falta de maturidade neural. A verdade é que continuo a tentar perceber até onde nos leva este caminho de inércia. Continuo a tentar perceber como podémos descer nós tão baixo. Continuo a tentar perceber como pode uma hormona, um simples fluido sanguíneo ou um mero nucleótido influenciar tanta coisa em nós. Continuo a tentar perceber como pode uma realidade humana ser tão imatura e o comportamento geral ser tão réplico e descabido. enfim... Comam-me vivo nesses lamirés de inconstância. Sujem-me a pele. Há alturas em que o melhor é não existir.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pois é, as férias instalaram-se e as pessoas escolheram caminhos que de algum modo as afastavam da comum rotina. O trabalho, a vontade, as pessoas, a família até, o mundo. Uns caminham para outros mundos, trocam de trabalho, de vontades, de pessoas. Criam novas famílias, desenham novos mundos. Partem e quando retornam sentem tudo rejuvenescido como se na verdade essa troca fosse tão somente uma purificação, não deixando o seu covil, não alterando mundos. Outros... outros deixam tudo. Cospem cada pó da sua pele com o pudor do pensamento. Optam pela ferida que tem de sarar depois de um desabrigo da consciência. Deixam a sua rotina e deixam o mundo. Vivem por si. Sozinhos. Caminhando como se mais nada existisse. Uma foz de luz apenas de si para si para salvaguardar os seus horizontes e quando voltam nada muda porque é assim a solidão e o labirinto de quem quer ir mais alto - especialmente consigo próprio. São escolhas, são realidades.
Penso que neste tempo todo não me posso inserir nem num nem noutro. Não saio de Lisboa, saio muito esporadicamente. Uma criatura social, sem dúvida, mas bastante complicada na sua selecção. O meu mundo é o da retoma e da reconstrução. Sinto-me preso ao que não sou e ao que nunca fui e deixo o tribunal do pensamento decidir quem de facto prevalece e como. Deixo a vontade crescer e tomar conta de mim na ambição que tanto em mim admiro. A minha companhia é o culto. O mundo do saber. É a arte. A arte de poder estar sem estar com o inconsciente. O meu mundo passa pelo desporto até e é essa a fase mais ampla da minha sociabilidade e até mesmo do meu evento de verão. Judo, BTT, ginásio. O meu trio. Trio que parte para quadra quando faço o desporto do arranha poder. Uma guitarra, um amplificador, um deserto por perto e mais nada a não ser a naturalidade das palavras e das notas em rimas que desamam desarmando todo o afecto que na realidade sentem.
Olho lá para fora e o tempo despiu-se para as pessoas. Os pássaros cantam de quando em vez e as pessoas calam-se. As pingas não caem mas a humidade esfriece. As pessoas não vêm. Não sentem. Penso por segundos no carro que aparece e pouco depois repara-se numa buzinadela por um fulano que por ele passou e por pouco não lhe bateu, por pouco não o levava a frente por ir tão mais dado em furacão ou então por o deste carro não saber o que anda a fazer, perdido ou ignorante, nas estradas da saga de um país.
Por momentos esqueço os acidentes e relembro as paragens stop. O tempo que isso leva em testes ridículos quando pessoas à beira da morte por tarados inconscientes - ou bem conscientes até - que as perseguem, delas abusam e nada lhes deixam. Tiram-lhe o poder. Sai-lhes o dinheiro, os penduricalhos e as palavras. Sai-lhes as lágrimas. Sai-lhes o poder da dignidade.
Em seguida penso nos meus vizinhos. Vejo um a sair porta fora para ir buscar o pão da manhã. Sinto-me arrepiado com os palavrões que daquela boca saem e com os olhares que os outros lhe apresentam. Uma unidade disforme mas completamente risório. São gentes iguais e no entanto são gentes que se criticam pelo mesmo.
Entre a ida e a volta, o barulho é imenso e as brincadeiras uma tristeza. Um literal reflexo do submundo civilizado. É isto que se encontra em cada canto da actualidade. Para quê mentir? Não se avança porque a educação deixou de ser esperança... Dizia-se, em tempos, que a par da religião estava a educação. Pouco depois, esta tornara-se na segunda faixa da pirâmide do poder, logo a seguir à entidade de(sse famoso) Deus. Hoje, nem Deus nem cravinho. Céus cuspiram-se e pessoas derreteram.
Não preciso de ir mais longe, basta pensar na minha própria família. Derreto-me dentro dela. Sou diferente e sinto-me cuspido com as entranhas do coração. Amar não chega. Amar não é.
Prefiro os minutos em que me posso esquecer do mundo enquanto transpiro melodias rítmicas e gritos do coração. Prefiro esquecer o que me rodeia e por um par de horas dar-me tão somente atenção a mim mesmo. Prefiro esquecer o mundo, ignorar quem me olha, por vezes até desafiando em competição, e entregar-me às maquinetas de um ginásio em que cada gota de suor é uma lágrima e um sorriso. Prefiro a solidão quando chego a casa. A companhia única de uma guitarra ou de um papel. Escrever, contar, cantar, tocar. Desenhar-me em notas, esquecer que existe mais alguém. Não estar, não viver. Ser. Eternamente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Fugi disto, tapeçaria de prata,
Frágil e ignóbil de ombreiras derretidas
Esquecei que saboreastes tal veneno,
Febril remédio de odes partidas
Largai-nos nessa vossa cobiça,
Rabo sujo e cheio de mel,
Parti até onde a sanidade é castiça
Largai essa chama estroina de todo este bordel

Esquecei o pecado do silêncio
Nessa lacuna de voz de apreciação evasiva
Nesse jogo cínico de arguto e sofisma,
Esses cabrões de chacota, conluio e carisma,
Saboreando a paz da voz exaustiva
Onde a tortura é mestra fustigante
De cuspo e melodia atenuante
Onde jaz toda a morte de vida nunca antes sentida

E parti sim por onde não há vida
Relembrai que fogo de demos
Nesse lodo e lava desconhecida
É vinho e calamidade
Cálice de sangue que cheira a saudade
Por entre chagas de voz e delírio
Nesse monte em que outrora foramos lírio
Cantemos no fragor pela sórdida maravilha
Nessa partida de lágrimas e sangue esguarnecida
Por entre os berros de quem outrora fora sida,
Sovinice eterna de virotes e futilidades convencidas

Bastai-vos com a merda de quem nada tem
Nesse chupismo chusmo de filhos da puta
Que se armam em coisas várias de brio e bem
E que sois vós, pequena maravilha senão ninguém?
Que paredes pintais, que rua fuzilada de 'trava quem'?
Sabeis vós de abrigos sem rotina
Selvas de amido e galope divina
Leitos de vales sem aconchego
Trépidos e comensurados por entre sal e entre medo
Onde a humidade é bordeaux de olhos transparentes
E a cabrada de bestas, tão certinhas e inocentes,
Nessa euforia de desdémUm suor descontente de cabeças
Uma puta de vida que não lembra a ninguém...